Crítica: O Batalhão 6888 - Entre cartas e preconceitos

 


O filme retrata uma história situada no final da Segunda Guerra Mundial, quando o exército americano enfrentava um problema que afetava diretamente a moral das tropas: a interrupção no fluxo de correspondências. Com milhões de cartas acumuladas, os soldados no front e suas famílias em casa viviam sob a tensão do silêncio. Este é o pano de fundo da missão do Batalhão 6888, composto exclusivamente por mulheres negras, encarregado de lidar com 17 milhões de cartas e restaurar a conexão entre as linhas de frente e o lar.

A premissa é rica e emocionante, mas a execução deixa a desejar. O filme enfrenta problemas evidentes, desde “defeitos” especiais pouco convincentes até um roteiro que, em momentos, se arrasta de forma cansativa. Apesar disso, a história central consegue tocar o espectador, especialmente ao expor as adversidades enfrentadas por essas mulheres em um contexto marcado pela segregação racial e pelo sexismo, agravados pela vigência das Leis Jim Crow.

O peso da narrativa histórica

O roteiro mergulha nos desafios do Batalhão 6888, mas parece tropeçar ao delegar o protagonismo de forma equivocada. A narrativa sugere que a mobilização dessas mulheres foi resultado da “generosidade” de figuras brancas como Eleanor Roosevelt, representada no filme como a catalisadora da missão, ao lado de Mary McLeod Bethune. Embora Bethune tenha sido uma das principais lideranças negras da época, o filme não dá o devido peso à força coletiva das mulheres negras na conquista desse espaço. A abordagem acaba evocando um incômodo paralelo com a narrativa da “Princesa Isabel”, diluindo a luta autônoma dessas mulheres sob o manto de uma espécie de benevolência branca.

Ainda assim, o filme não deixa de ser um importante “dramalhão” histórico, capaz de emocionar e arrancar lágrimas do público. A força do elenco feminino e a carga emocional da missão tornam a obra envolvente, especialmente ao destacar o impacto das mulheres negras que desafiaram o racismo, o sexismo e as adversidades de guerra.

Histórias de Vida e o Impacto Além do Front

Embora o problema das correspondências acumuladas durante a Segunda Guerra Mundial sirva como o pano de fundo para O Batalhão 6888, o filme opta por explorar a narrativa através de pequenas histórias pessoais. Em vez de focar na ação direta ou em feitos heróicos no campo de batalha, a obra destaca a resiliência emocional e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres do batalhão.

Esses dramas individuais funcionam como a espinha dorsal do enredo, trazendo humanidade e profundidade à missão do batalhão. Contudo, o roteiro, em alguns momentos, parece sobrecarregar o espectador com excessos emocionais, diminuindo o impacto das histórias reais.

Ainda assim, o filme oferece uma recompensa comovente nas cenas pós-créditos. A apresentação das verdadeiras heroínas, agora centenárias, proporciona um fechamento emocionante, conectando o espectador à importância histórica e humana dessas mulheres. Essas cenas não apenas reforçam a autenticidade da narrativa, mas também garantem um momento de reflexão sobre o legado das personagens que inspiraram o longa.

Conclusão

“O Batalhão 6888” é um filme que, apesar de suas falhas, merece ser assistido por seu valor histórico e pela homenagem às mulheres negras que escreveram um capítulo importante na Segunda Guerra Mundial. É uma obra que pode inspirar o público, mas que, ao mesmo tempo, serve como um lembrete de como o cinema ainda luta para contar histórias com a profundidade e o respeito que elas merecem.

Dirigido por Tyler Perry, O Batalhão 6888 conta com um elenco liderado por Kerry Washington (Django Livre), ao lado de Ebony Obsidian, Shanice Williams e Dean Norris (Breaking Bad). O filme está disponível para streaming na Netflix.


 

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